Bolsonarismo, unidade popular e alianças necessárias

Bolsonarismo, unidade popular e alianças necessárias

"As forças populares têm tarefas simultâneas essenciais no sentido de consolidar um núcleo programático e formar uma coalizão ampla na sociedade"

Por Igor Felippe Santos*

A postura irresponsável do presidente Jair Bolsonaro diante do aprofundamento da crise brasileira com a pandemia do coronavírus e seus desdobramentos econômicos intensificou o debate no campo progressista sobre a necessidade da construção de uma “frente ampla” para enfrentar o governo neofascista.

O obscurantismo e negacionismo de Bolsonaro diante da pandemia do coronavírus, mais os ataques ao pensamento científico e à liberdade de imprensa, colocaram o governo em contradição com amplos setores que, fundamentalmente, apoiam o isolamento social.

O conjunto das forças progressistas propugnam a unidade e a ampliação da resistência como essenciais para enfrentar o bolsonarismo. No entanto, a proposta da “frente ampla” tem se colocado de forma genérica, sem clareza em relação aos objetivos táticos e estratégicos, caráter, formato, perfil e amplitude política.

A realização de alianças e a construção de frentes fazem parte tática de cada uma das organizações e têm impacto no enfrentamento ao governo e à profunda crise do nosso país. No entanto, para construir uma base comum, é necessário considerar os antecedentes históricos que contribuem para a reflexão sobre as ações políticas.

O primeiro antecedente é que o golpe do impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016 marca o avanço político do bloco burguês em torno de um programa ultraneoliberal, que unifica frações de classes do grande capital e sua expressão política no Congresso e instituições.

Os partidos do “centrão” sob a gestão de Michel Temer, do MDB, aprovaram o teto dos gastos e a reforma trabalhista; Bolsonaro e Paulo Guedes seguiram com a reforma da previdência.

O segundo antecedente é que as lacunas estratégicas dos governos Lula/Dilma e tática da direita de centrar os ataques contra o PT afetaram a sua capacidade de manter a hegemonia sobre as forças democráticas e populares que sustentava desde a década de 80. Abre-se uma disputa dentro da esquerda, que se manifesta na dispersão dos setores progressistas no campo partidário e na sociedade civil.

O terceiro antecedente é que a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência levou ao centro do governo os setores mais conservadores da sociedade, que defendem abertamente bandeiras que se contrapõem aos princípios da Constituição de 1988 que caracterizaram a “Nova República”.

É a emergência política de uma corrente neofascista, que ataca as instituições, constrange referências da Câmara, do Senado e do STF, despreza a liberdade de expressão e de imprensa, desqualifica o pensamento e a ciência.

Diante desse quadro, considerando esses antecedentes, duas concepções que perpassam o debate sobre a frente ampla devem ser descartadas, como ponto de partida para avançar na unidade, evitar dúvidas e desconfianças mútuas.

Em primeiro lugar, uma concepção estreita que considera “tarefa perdida” ou “desvio político” o esforço de envolvimento do maior número de figuras públicas, segmentos da sociedade e representações políticas na oposição ao governo Bolsonaro.

Essa visão desconsidera as contradições que se abriram com o avanço do neofascismo, o combate ao isolamento social, a desqualificação do pensamento científico, as ameaças à liberdade de imprensa, ao mundo da cultura, ao STF e ao Congresso Nacional. Os posicionamentos do youtuber Felipe Neto e do ator Lima Duarte, por exemplo, expressam o deslocamento de alguns setores.

A segunda concepção que deve ser desconsiderada idealiza a constituição de uma frente ampla de caráter mais “permanente” com setores do centro e até da direita, com a expectativa de construir no médio prazo uma unidade eleitoral nas próximas eleições. Subestima-se ou ignora-se as profundas diferenças programáticas e de projeto de desenvolvimento para enfrentar a crise.

Diante disso, as forças populares têm tarefas simultâneas essenciais no sentido de consolidar um núcleo programático e formar uma coalizão ampla na sociedade.

Em primeiro lugar, congregar de forma orgânica o conjunto do campo democrático, nacional e popular, impulsionar a campanha do Fora Bolsonaro, fortalecer a unidade em torno de um programa para enfrentar o pandemia do coronavírus, enterrar os paradigmas neoliberais e superar a crise brasileira com a convergência da estagnação econômica, da dissolução do sistema político e da deterioração das condições de vida da maioria da população.

Além disso, é necessário manter articulação permanente com entidades da sociedade civil (como igrejas, entidades jurídicas, sociedade científicas) para envolvê-las no Fora Bolsonaro e na construção de um programa de saída para crise.

Em segundo lugar, não hesitar diante do avanço de medidas de retirada de direitos trabalhistas, como a criação da “carteira verde e amarela” e a “MP da Grilagem”, que conferem maior unidade às frações burguesas e suas expressões políticas e devem ser denunciadas e combatidas.

Por fim, manobrar a construção das coalizões mais amplas possíveis, sem veto, para enfrentar medidas do governo Bolsonaro no campo da defesa da vida, da democracia e contra o neofascismo, em torno do isolamento social, da liberdade de expressão e do pensamento científico, atuando para arrastá-las para o Fora Bolsonaro. Não cabe qualquer sectarismo para afrontar o autoritarismo, o militarismo e o obscurantismo.

A emergência política da corrente neofascista no Brasil aumentou a complexidade da luta política no Brasil, colocando como tarefas essenciais e complementares a consolidação de uma frente de forças populares, nacionais e democráticas, que apresente um projeto nacional de saída para a crise e que seja capaz de construir uma política de alianças e formar coalizões amplas torno da defesa das liberdades democráticas para isolar e derrotar o bolsonarismo.

 

Igor Felippe Santos - Jornalista e ativista do movimento popular


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