Metalúrgicos param Renault do Paraná que, mesmo com incentivos fiscais, demitiu 747

Metalúrgicos param Renault do Paraná que, mesmo com incentivos fiscais, demitiu 747

Quase 800 famílias acordaram nesta quarta-feira (22) sem perspectivas de futuro. São pessoas que dependem diretamente dos 747 empregos extintos pela fábrica Renault do Complexo Ayrton Senna, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.

Apesar das demissões terem pegado os metalúrgicos de surpresa, a reação foi imediata. A montadora anunciou as demissões na tarde desta terça-feira (21) depois que os metalúrgicos rejeitaram a proposta de um Plano de Demissão Voluntária (PDV) e estabeleceram o prazo de 72 horas para que a Renault voltasse a negociar com os trabalhadores. No fim do mesmo dia, em assembleia realizada na porta da fábrica, os metalúrgicos aprovaram greve por tempo indeterminado até que seja estabelecido o diálogo entre a montadora e o sindicato da categoria, que luta para reverter as demissões.

A montadora “simplesmente informou” sobre as demissões, que representa pouco mais de 10% da mão de obra da fábrica, disseram os dirigentes do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, que esperavam uma retomada de negociações depois que uma assembleia realizada na última sexta-feira (17) rejeitou a proposta da montadora que incluía o PDV.

“Queremos deixar nosso repúdio pela forma que esta empresa está agindo, mesmo recebendo incentivos fiscais do governo do estado para gerar e também manter empregos”, afirmou o presidente do Sindicato, Sérgio Butka, segundo a RBA. Butka disse que os metalúrgicos continuarão buscando “uma relação capital-trabalho mais harmoniosa”.

As demissões têm ainda os agravantes de ocorrerem em meio à pandemia do novo coronavírus (Covid-19) e no momento em que crescem os casos da doença no Paraná, além da empresa ter recebido do governo do Estado incentivos fiscais para implantação da fábrica na região. Cálculos da época apontavam que o erário paranaense renunciou a R$ 1.9 bilhão com o adiamento e o financiamento do ICMS para a montadora

“Não há como admitir uma situação destas. É desumano sob qualquer ótica. Demissões já não devem existir em qualquer cenário. Com uma pandemia a situação torna-se ainda mais grave e soma-se a este fato os incentivos fiscais. É um crime contra estes trabalhadores e trabalhadoras, é um crime contra as famílias destas pessoas e é também um crime contra o contribuinte paranaense que renunciou aos impostos para a criação de empregos”, apontou o presidente da CUT Paraná, Márcio Kieller, que divulgou nota de repúdio as demissões.

A CUT Nacional e demais centrais sindicais também divulgaram nota se solidarizando com os trabalhadores, criticando o fato das demissões terem sido efetivadas antes do prazo de 72 horas aprovado na assembleia dos metalúrgicos para que a montadora voltasse a negociar e se colocando a disposição da categoria para realizar, inclusive, manifestações nas revendedoras da Renault de todo o País.

De acordo com a nota, é preciso “mostrar à sociedade a insensibilidade social da empresa, principalmente nesse sério momento de pandemia, em que as perdas de emprego e de renda são ainda muito mais preocupantes e podem levar famílias inteiras a riscos sociais muito graves”.

Confira no final do texto a íntegra da nota da CUT e demais centrais.

Sobre a Renault

A Renault tem cerca de 7.300 trabalhadores e produz vários modelos como Sandero Stepway, Logan e Kwid. Tem também uma unidade de motores.

Em nota, a Renault afirmou que adota “soluções de flexibilidade” desde o início da pandemia, para enfrentar a queda nas vendas e a falta de perspectiva de retomada do mercado. “Após realizar todos os esforços possíveis para as adequações necessárias e não havendo aprovação das medidas propostas, não restou outra alternativa”, diz a empresa, anunciando o fechamento do terceiro turno de produção.

Nota das Centrais Sindicais em solidariedade à greve dos metalúrgicos na Renault

As centrais sindicais estão solidárias à greve, por tempo indeterminado, dos trabalhadores da Renault de São José dos Pinhais (PR) contra as 700 demissões anunciadas pela montadora na terça-feira, 21 de julho de 2020.

Vale destacar que o anúncio das demissões ocorreu antes do prazo de 72 horas aprovado na sexta-feira, 17, em assembleia da categoria, para que a empresa voltasse a negociar com o Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba-PR (SMC) alternativas para a manutenção dos empregos.

Repudiamos essa forma intransigente de agir da atual direção da planta da Renault em São José dos Pinhais-PR, pois sabemos que a empresa tem recebido incentivos fiscais do governo do Estado do Paraná exatamente para gerar e manter empregos.

Colocamo-nos à inteira disposição dos metalúrgicos, liderados pelo SMC nesaa greve, inclusive com manifestações nas lojas revendedoras da Renault de todo o País, para mostrar à sociedade a insensibilidade social da empresa, principalmente nesse sério momento de pandemia, em que as perdas de emprego e de renda são ainda muito mais preocupantes e podem levar famílias inteiras a riscos sociais muito graves.

Sérgio Nobre - Presidente nacional da CUT - Central Única dos Trabalhadores
Miguel Torres - Presidente da Força Sindical
Ricardo Patah - Presidente da UGT – União Geral dos Trabalhadores
Adilson Araújo - Presidente da CTB - Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil
José Calixto Ramos - Presidente da NCST - Nova Central Sindical de Trabalhadores
Alvaro Egea – Secretário-geral da CSB - Central dos Sindicatos Brasileiros
Atnágoras Lopes - Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas
Nilza Pereira de Almeida - Secretária de Finanças da Intersindical - Central da Classe Trabalhadora
Ubiraci Dantas Oliveira - Presidente da CGTB - Central Geral dos Trabalhadores do Brasil
Emanuel Melato - Coordenação da Intersindical – Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora
José Gozze, presidente da PÚBLICA, Central do Servidor

 

São Paulo, 22 de julho de 2020


Imprimir